MALU DELGADO
da Folha de S.Paulo, em Zurique
Algumas horas após a polícia de Zurique afirmar que Paula Oliveira não estava grávida no dia em que alega ter sido vítima de agressão por parte de um grupo neonazista e ainda endossar que há fortes indícios de automutilação, o pai dela, o advogado pernambucano Paulo Oliveira, disse à Folha que não coloca em dúvida a versão da filha.
A gravidez de Paula, afirmou ele, seria algo “secundário” nas investigações. O ponto central, disse, é a “tortura” à qual Paula foi submetida –um ataque que a vítima e a família atribuem à reação violenta e preconceituosa contra a imigração na Suíça.
O pai de Paula reagiu ainda com a máxima do direito: o ônus da prova cabe a quem acusa, e a família, até então, não pensava em apresentar exames médicos para comprovar a suposta gravidez de Paula.
Com a fala lenta devido ao efeito de tranquilizantes, o advogado contou ontem à tarde que as fotos que chocaram o Brasil e a comunidade internacional foram tiradas por Marco Trepp, noivo de Paula, por orientação dele. “As fotos foram colhidas a meu pedido”, afirma. Ele também teve a responsabilidade da divulgação do material à imprensa.
Na noite desta sexta-feira (13), a polícia foi até o hospital comunicar à família que Paula não estava grávida na noite do ataque e que investiga a possibilidade de ela própria ter se ferido.
Folha: O sr. disse que prefere não comentar a informação da polícia, mas eles afirmam de forma contundente que Paula, no momento da agressão, não estava grávida, e disseram que a afirmação é feita com base em exames médicos. Isso muda totalmente o caso. A Paula afirmou ao sr. que estava grávida? O sr. acha que isso muda o rumo das investigações caso essa hipótese da polícia seja confirmada?
Paulo Oliveira: Eu não devo raciocinar sob hipóteses. Eu não tenho motivos para duvidar da minha filha. E penso que esse assunto da gravidez é secundário. O assunto principal é a tortura que a minha filha sofreu. Os agressores não poderiam saber se ela estava grávida ou não. Não se tratou de uma agressão a uma mulher grávida, mas de uma agressão de xenófobos contra trabalhadores estrangeiros. É dessa forma que eu vejo.
Folha: Ainda que o sr. não considere a gravidez o fator crucial da história, o fato de Paula ter dito à polícia que estava grávida –e se de fato ficar confirmado que não estava, ou que teria feito um aborto antes da data da agressão– se configurará como mentira às autoridades da Suíça. Como o sr. reagirá?
Paulo: Não se pode deixar de considerar o fato de que o contato [primeiro atendimento da polícia suíça a Paula após o episódio] foi feito de forma inadequada e com uma pessoa em estado de choque. A própria polícia admitiu ontem [quinta-feira (12)] que o atendimento teria sido inadequado. E hoje [sexta-feira (13)] surge com essa versão, que eu não vi, e por isso não quero comentar.
Folha: Essas fotos do corpo da Paula que foram divulgadas são de uma perícia policial?
Paulo: Essas fotos eu tirei em casa [na casa de Marco e Paula, em Dubendorf]. Essas fotos foram colhidas a meu pedido, porque diante do relato da embaixadora [a cônsul-geral do Brasil na Suíça, Vitória Cleaver] de que não conseguia informações adequadas da polícia e diante do fato de a Paula afirmar que estava sendo constrangida pela polícia a admitir que tinha sido ela própria a causadora disso tudo, eu entendi que o mais apropriado era fazer fotografias para mostrar a extensão dos ferimentos. Ninguém poderia fazer aquilo a si próprio. Cortes continuados, dezenas. Todos sabem que cortes superficiais são mais dolorosos que os profundos, porque é na pele [epiderme] que estão os terminais nervosos.
Folha: Quem tirou as fotos? O sr.?
Paulo: Não. Quem tirou as fotografias foi o Marco [Trepp, noivo de Paula]. Eu que solicitei que eles tirassem, para que a gente pudesse divulgar. Eu os aconselhei e eles concordaram.
Folha: Ela não se sentiu constrangida em mostrar o corpo daquela forma?
Paulo: Eu pedi que ela fizesse, que cobrisse as partes íntimas, mas que expusesse principalmente as letras.
Folha: O sr. diz que a polícia ontem [na quinta-feira (12)] procurou a Paula, dizendo que de fato o tratamento inicial foi inadequado, que ela deveria ter sido atendida por uma equipe feminina.
Paulo: Isso foi ontem, na presença da embaixadora [a cônsul Vitória Cleaver negou à Folha ter presenciado essa conversa] e da minha filha, no hospital. Foram duas senhoras da polícia. Não sei o posto delas.
Folha: E o que elas disseram, que a Paula deveria ter sido atendida por uma equipe feminina?
Paulo: Isso é o que me foi dito pela embaixadora, que assistiu ao relato das duas policiais. Eu não estava. Estavam a Paula, a embaixadora e essas duas senhoras da polícia, no hospital.
Folha: Foi longo esse encontro?
Paulo: Foi bastante demorado. No início, até a própria embaixadora tinha dificuldade de ter informação com a polícia.
Folha: A Paula tem conversado pouco, segundo o sr. disse. O sr. não conversou com sua filha sobre detalhes do ataque, o aborto?
Paulo: Ela não tem conversado nada, ela só faz chorar. Tem incomodado ela quando eu atendo o telefone e falo com um jornalista sobre o episódio; ela cai em choro convulsivo. Eu tenho sido repreendido por médicos e por pessoas que estão dando assistência a ela para que eu não atenda a imprensa com ela [a Paula] presente.
Folha: Mas em nenhum momento ela lhe disse “pai, aconteceu isso, aquilo”. O que ela exatamente lhe contou?
Paulo: Tudo que ela me contou foi no telefonema, quando eu ainda estava no Brasil.
Folha: E como foi esse contato?
Paulo: Ela me telefonou nas primeiras horas da manhã da segunda-feira, umas 5h. Eu despertei com a chamada dela, me dizendo: “Pai, eu não tenho boas notícias”. Ela estava chorando, e me contou que havia sofrido uma agressão, que havia perdido os bebês e que estava com o corpo todo retalhado por canivete suíço. Me disse que tinham sido três homens, e dois a seguraram. Que um deles tinha uma suástica tatuada na cabeça, e que a polícia a estava constrangendo a dizer que ela tinha se automutilado. Desde o primeiro momento esse foi o comportamento da polícia, de tratar com desumanidade a vítima.
Folha: A cônsul-geral em Zurique disse à Folha ontem que o comportamento da polícia havia melhorado bastante, o nível das conversas se elevado. Como o sr. interpreta essa divulgação da polícia hoje?
Paulo: Pois é. Eu insisto em dizer que não vou comentar, porque ainda não vi. Mas com as informações que chegam a mim, me deixa chocado esse comportamento dúbio [da polícia]. Um dia pede desculpas, e no outro dia lança outra vez a culpa sobre a vítima, para desacreditar a vítima.
Folha: O sr. acha que o fato de a polícia insistir que ela não estava grávida minimizaria a suposta agressão?
Paulo: Eu já estudei comunicação e sou advogado há mais de 20 anos. Essa é uma estratégia das mais utilizadas no mundo inteiro: quando se está numa situação embaraçada, procura-se desviar o foco. No Brasil é a mesma coisa, há uma anedota dizendo que, em determinadas situações, se põe a culpa no sofá.
Folha: O sr. acredita que é esse caso que está ocorrendo agora?
Paulo: O que me ocorre é que, diante da repercussão internacional que o caso provocou, essa versão é precipitada, precoce, e, na verdade, é um retorno àquilo que os policiais tentaram fazer num primeiro momento: fazer com que a vítima se transformasse em réu.
Folha: Esse caso pode criar uma séria situação diplomática, sobretudo porque o governo brasileiro se expôs muito no caso. O presidente Lula condenou enfaticamente preconceitos, o ministro Celso Amorim não descartou ser caso de xenofobia. O governo brasileiro fez presunções baseadas no relato da Paula. Caso se confirme que ele não é verdadeiro, cria-se um cenário muito delicado.
Paulo: Eu diria que a questão da gravidez era mais importante para o governo suíço porque seriam dois novos cidadãos suíços prestes a nascer. Então, para eles, a versão de que não há gravidez é mais conveniente que para nós. Eu não tenho motivos para duvidar da minha filha.
Folha: O sr. então não trabalha com essas hipóteses [automutilação e inexistência de gravidez]?
Paulo: Eu não tenho por que fazê-lo. Só uma pessoa poderia por em dúvida a gravidez da minha filha: o companheiro dela.
Folha: Ou ela própria.
Paulo: É, ou ela.
Folha: Não existe nenhum laudo ginecológico no hospital, sobre o atendimento? Se ela fez uma curetagem pós-aborto, isso teria sido comprovado num exame. A família e a Paula não podem mostrar esse laudo para comprovar o que ela está dizendo, que estava grávida? Não existe nenhuma cópia de exames? A família pode formalmente solicitá-los ao Hospital Universitário de Zurique?
Paulo: Eu não tenho como mostrar isso primeiro porque eu não estava aqui. Ela pode sim solicitar isso ao hospital. Mas o momento não deve ser esse. O momento deve ser quando ela sair desta fase de choque. Ela não tem que estar produzindo provas. Ela não tem que provar nada. A vítima não tem que provar nada. O principal no momento é dar assistência a ela, e não satisfazer às conjecturas da polícia.
Folha: Mas não é interesse da família apresentar provas sólidas?
Paulo: O momento não é esse. É de prestar todo apoio e assistência à vítima.
Folha: Como membro da família então o sr. não pretende refutar a versão da polícia?
Paulo: Enquanto a minha filha não estiver restabelecida, não. A minha prioridade é cuidar da minha filha. Em nenhum lugar civilizado as vítimas têm que provar que estão dizendo a verdade ou que são inocentes. Isso não é uma atitude correta, não é uma atitude humanitária.
Folha: Além da questão psicológica, a Paula tem algum comprometimento físico? Ela está com algum problema médico grave, que poderia ser consequência de um aborto ou de uma agressão física?
Paulo: Ela voltou a ser internada por problemas urinários. Eu perguntei isso aos médicos, e ela também disse que não estava conseguindo urinar. No dia anterior [ à primeira liberação], ela foi chamada ao hospital para tomar um coquetel anti-virótico, que seria uma medida profilática, contra doenças transmissíveis, hepatite, AIDS, não sei se também de sífilis.
Folha: Ela fez em algum momento relato de agressão sexual?
Paulo: Não, não. Não há nenhuma queixa de estupro. Em nenhum momento ela mencionou isso. Eles tiraram a roupa dela, cortaram o peito, a púbis, coxas, virilha, tudo. Tem marcas no rosto também, no pescoço, na bochecha. São ferimentos superficiais. São ferimentos próprios de tortura.
Folha: Ela estava sozinha numa estação de trem quando foi atacada? Ela não gritou? Eles a teriam levado para um local próximo?
Paulo: Não sei [se gritou]. Ela diz que [o ataque] foi no próprio lugar. Nunca vi o lugar [ a estação]. E nem quero ir lá. Não penso que seja um lugar aonde eu deva ir. Depois do ataque ela se refugiou no banheiro. Ela ligou, então, para o companheiro dela, o Marco. Ela disse que ele foi a primeira pessoa para quem ela ligou. A informação que eu tenho é que o Marco então acionou a polícia e a ambulância, depois que ela ligou para ele dizendo que estava ferida dentro do banheiro de uma estação de trem. De lá então é que foi atendida e levada para o hospital. E neste hospital aqui ela ficou um longo tempo sendo permanentemente constrangida pela polícia.
Folha: A Paula atribui o ataque à xenofobia?
Paulo: Ela e todos os amigos. Havia aqui em Zurique, segundo relato de todos, campanha publicitária desse partido apresentando os trabalhadores estrangeiros como um corvo, ou um abutre, devorando um pedaço de carne. Uma campanha desse partido [letras SVP, no corpo de Paula, são a sigla do partido].