Vitória de Chávez em referendo pode servir de inspiração para outros presidentes

Marcia Carmo | BBC Brasil

Para analistas, Uribe também pode tentar terceiro mandato

Para analistas, Uribe também pode tentar terceiro mandato

A vitória do “sim” no referendo sobre a emenda constitucional que permite a reeleição ilimitada do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, poderá servir de “exemplo” para outros presidentes da região, principalmente Álvaro Uribe, da Colômbia, afirmaram analistas ouvidos pela BBC Brasil.

“Uribe e Chávez são muito diferentes, mas, como Chávez, Uribe entende que ele é imprescindível para seu país. Os dois se parecem quando mudam a legalidade em favor de seus interesses. Além disso, quando perguntam a Uribe se ele tentará uma terceira eleição, ele não nega, prefere o silêncio”, afirma Ricardo Israel, professor de Ciências Políticas da Universidade Autônoma do Chile.

O cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia, afirma, inclusive, que Uribe, “seguindo os passos de Chávez”, poderá convocar ainda este ano um referendo sobre a possibilidade de sua reeleição, caso consiga a aprovação de uma emenda constitucional que já está no Congresso Nacional e que depois será analisada pela Suprema Corte de Justiça.

“Já existe um processo de referendo em marcha aqui na Colômbia, para o qual, no ano passado, foram reunidas 4 milhões de assinaturas (a favor de um terceiro mandato de Uribe). Uribe e Chávez são diferentes, mas buscam os mesmos objetivos”, afirma Vargas.

O analista colombiano lembra que a Constituição da Colômbia foi reformada em 2003 para permitir a reeleição de Uribe, em 2006. Até então, a Carta Magna da Colômbia não previa a reeleição presidencial.

“Essa decisão dos presidentes de mudar as normas de acordo com seus desejos deixa a América do Sul cada vez mais como uma região de repúblicas de bananas, onde as instituições não têm importância”, afirma Vargas.

Ricardo Israel, por sua vez, afirma que, atualmente, o presidente colombiano não tem maioria no Congresso Nacional para reformar a Constituição, mas não descarta que Uribe consiga os votos que precisa.

Reeleição

Dos dez principais países da América do Sul – excluindo a Guiana, a Guiana Francesa e o Suriname -, a Venezuela é o primeiro a aprovar a reeleição ilimitada para presidente. Somente quatro destes países não preveem a reeleição presidencial.

As Constituições do Chile, do Uruguai, do Paraguai e do Peru prevêem apenas um mandato presidencial.

No Chile, durante o mandato do ex-presidente Ricardo Lagos (2000-2006), uma proposta de emenda que permitia a reeleição presidencial chegou a ser enviada ao Congresso, mas não obteve apoio suficiente para ser aprovada.

Tanto no Chile como no Uruguai, um presidente pode se candidatar novamente ao cargo somente depois de um intervalo de um mandato exercido por outra pessoa.

Nos últimos meses, no Uruguai, surgiram campanhas sugerindo que o presidente Tabaré Vázquez deveria mudar a Carta Magna e disputar um segundo mandato. Ele, no entanto, descartou a possibilidade.

Influência

Nestes países, assim como na Argentina e no Peru, o exemplo da possibilidade de eleição ilimitada de Chávez “não gerou interesses internos”, como afirmou à BBC Brasil o analista boliviano René Mayorga, do Centro Boliviano de Estudos Multidisciplinares, de La Paz.

Segundo Mayorga, a aprovação da emenda constitucional na Venezuela também não deve ter “efeito imediato” nos governos que classifica como “influenciados por Chávez”.

“Não há sinais de que Nicarágua, Bolívia e, de certa forma, a Argentina queiram seguir o mesmo caminho que Chávez, da eleição ilimitada”, afirma Mayorga.

Ele lembra que, no mês passado, foi aprovada a nova Constituição da Bolívia, que permitirá uma reeleição do atual presidente Evo Morales.

“Aqui (na Bolívia), não há convicção política ou pressões e interesses dentro do governo de Morales para aplicar essa medida da reeleição ilimitada”, afirma.

Mayorga lembra que no Equador, onde uma nova Constituição foi aprovada no ano passado, o presidente Rafael Correa também poderá concorrer a mais um mandato.

Dificuldades

O cientista político Ricardo Israel lembra que, no passado recente, outros presidentes também tentaram a fórmula conquistada, no domingo, por Chávez, mas não conseguiram. Entre eles estão Carlos Menem, da Argentina, e Alberto Fujimori, do Peru.

Ele ainda afirma que, mesmo com a conquista do último domingo, Chávez pode ter dificuldades em vencer as próximas eleições presidenciais na Venezuela, marcadas para 2012.

“Até lá, ele deverá enfrentar a crise econômica, com uma inflação altíssima, e os efeitos da queda no preço do petróleo, que colocam em risco os planos sociais em vigor na Venezuela e a ajuda a outros países da região”, afirma.

Uribe chega ao Brasil em momento ‘favorável aos dois países’

Fabrícia Peixoto | BBC Brasil

Uribe tem 78% de aprovação na Colômbia

Uribe tem 78% de aprovação na Colômbia

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, chega ao Brasil neste domingo para uma visita de três dias, cuja principal missão é agradecer pessoalmente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela contribuição brasileira no resgate de seis reféns colombianos mantidos pelas Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Dezesseis militares brasileiros participaram da operação, que aconteceu há duas semanas na selva colombiana. Também foi utilizado um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB).

O momento é politicamente “bastante favorável” para os dois mandatários, de acordo com especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

“São os dois presidentes mais populares da América Latina comemorando uma operação de resgate de reféns. O momento não poderia ser mais favorável”, diz o professor Rafael Duarte Villa, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com o Instituto Gallup Colômbia, o governo de Uribe tem 78% de aprovação. Já o presidente Lula chega a 84%, segundo a pesquisa CNT Sensus.

“É natural que ambos queiram tirar proveito político de um episódio positivo, que foi a libertação dos reféns”, diz o professor da USP.

Aproximação

A operação de resgate, porém, não é a única motivação da aproximação entre Lula e Uribe. Para o historiador Francisco Carlos Teixeira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a eleição de um democrata à presidência dos Estados Unidos “abriu uma janela de oportunidade” na relação entre Brasil e Colômbia.

“A relação da Colômbia com os Estados Unidos, historicamente intensa, passa por um momento de interrogações”, diz Teixeira. “Esse vácuo cria uma boa oportunidade para que Brasil e Colômbia intensifiquem suas relações”.

Representantes do Partido Democrata americano têm se mostrado reticentes quanto ao acordo de livre comércio com a Colômbia, assinado em 2006 pelo presidente George W. Bush, mas até hoje não ratificado pelo Congresso.

Durante sua campanha, o então senador Barack Obama disse que seria contra o acordo bilateral caso eleito para a Presidência, “em função da violência contra sindicalistas na Colômbia” e pelo fato de o tratado “não incluir questões de proteção trabalhista”.

Também durante a campanha, o presidente Uribe recebeu na Colômbia o senador John McCain, o que acabou sendo interpretado como um apoio ao candidato republicano.

“Neste momento, a política externa colombiana não pode depender tanto dos Estados Unidos. O presidente Uribe precisa abrir o leque de relações na América do Sul”, diz o professor da UFRJ.

Interesse brasileiro

Ainda segundo Teixeira, o Brasil também tem interesse em se aproximar da Colômbia. “O governo brasileiro entendeu que é possível a Colômbia roubar da Argentina o posto de segunda maior economia da América do Sul e que não temos nenhuma relação específica com os colombianos”, diz.

No ano passado, as exportações brasileiras para a Colômbia somaram US$ 2,29 bilhões, número inferior ao exportado para outros países latinos, como Argentina, Venezuela, Chile, México, Paraguai e Peru. Entre os principais produtos da pauta estão aviões e automóveis.

Já as importações de produtos colombianos são de menor valor: no ano passado, chegaram a US$ 829 milhões.

Mesmo sem o acordo de livre comércio, o principal parceiro comercial da Colômbia são os Estados Unidos, que respondem por 32% das exportações colombianas. Diversos itens de consumo e industriais produzidos na Colômbia podem entrar no mercado americano com tarifa de importação zero.

Populismo

A professora Arlene Tickner, da Universidad de los Andes, diz que o Brasil “nunca foi prioridade para a Colômbia e vice-versa”, mas é possível que agora o presidente Uribe esteja “em busca de novos sócios na região”.

Lula e Uribe, segundo ela, têm em comum o alto índice de popularidade, “mas as comparações param aí”. “Uribe é extremamente popular e carismático, mas seu estilo está mais para Chávez do que para Lula”, diz Tickner.

Segundo ela, Uribe está desenvolvendo “um estilo autoritário, intolerante a opiniões contrárias”. “Seu estilo é de um populismo de direita”, diz.